Maria...
De onde eu
vim? Porque estou aqui?
Sabe mãe,
quando eu mexi pela primeira vez no seu ventre, imagino que você tenha pensado.
-Minha nossa
e agora? É tudo ainda mais real.
Eu fui a
primeira e de onde vim, veio mais duas preciosidades, minhas queridas, amadas e inestimáveis irmãs...
Quando você me carregava dentro de ti, eu te fiz
passar tão mal, te enjoei tanto e você foi tão forte, tão forte que mesmo sobre
críticas, julgamentos e toda precariedade eu estou aqui.
E estava aqui
refletindo sobre nossa vida, e como o mundo da voltas, e observo que as
mesmas pessoas que hoje julgam o outro por sua orientação sexual, são os
mesmos que te julgaram por ser mãe solteira, por escolher nos trazer ao mundo,
e se teve algo que incomodou muito gente e que pode ser medido na mesma proporção ainda foi a sua Coragem, quem tem coragem incomoda quem não tem.
Você teve
coragem de assumir que era mãe solteira, e isto foi como se você escrevesse na sua testa
- me julguem - porque isso que pesava todos os dias, e todos
os dias eu me sentia um objeto dentro de casa, como uma estranha, se sentindo culpada pela minha própria existência, e foi pela sua perseverança que as visões começaram a clarear, você lutou tanto mãe, e
como lutou, errou, acertou e nos ensinou, nos motivou a ser mais que todos a nossa volta
desejava que a gente fosse, amenizando qualquer dor
que nos era direcionada.
Nessa data
referida ao dia dos pais eu recordo que levava para ti todos os presentes da escola,
nunca me incomodou o fato de não ter um pai, mas sempre me incomodou o fato de
julgarem você, me revoltei e como me revoltei, não admitia que todos que poderiam
ter lhe ajudado, lhe acolhido foram os que mais lhe apedrejou e te
julgou como se você tivesse nos plantado sozinha, e eu ouvia sempre, e ouvi por
muito tempo sem responder, que você quis assim, e me questionava, - quem
escolhe ser crucificada por sonhar com uma família, por acreditar que um
homem será pai dos seus filhos e ser amada. No entanto aos poucos notava que
mais uma vez você estava sendo julgada, e era um circulo tão vicioso que
cheguei a ouvir que meu digníssimo pai não teve culpa... Afinal ele é homem, e eu, que fui rejeitada pela identidade paterna duas vezes ficava sem compreender como ele nunca era referido como culpado.
A primeira rejeição foi logo ao nascer, quando não me reconheceu, não me viu crescer, não
arcou com nenhuma necessidade minha, não me viu formar no colégio e nem na
faculdade, eu considero isso um aborto paterno, mas...
A segunda veio quando ao me reconhecer judicialmente virou mais uma vez a cara
pra lua e fingiu não saber da minha existência, nem de minhas irmãs.
É estranho. Frio. e ás vezes penso que estranhamente esta criatura
"meu pai" deu seu sentimos paternos a outros tão filhos quanto eu. Mas,
vai entender né, e assim crescendo e evoluindo as respostas foram surgindo, e desde então os
lábios passaram a soltar o que o coração sentia e a mente não mais se aquietara.
E com felicidade que todo este passado ficou onde deveria, no passado, e a cada dia mãe que compreendo seu amor passei a te
admirar ainda mais.
De tudo que já passamos desejo
apenas que as boas lembranças fiquem guardadas, pois elas são muitas, o gosto pelo café,
boa música e de conversar você há de concordar que é de você que veio. Não sei
se sabes, mas a leitura também, quando criança eu lia aqueles livros infantis
que nunca me chamaram atenção, mas por volta de meus onze/doze anos
recordo-me de um livro que você tinha Simplesmente viver, da Eliana Chaves,
lembro-me bem que ele contava a historia de um garoto, que sofria de
distrofia muscular, uma doença incurável, e a família sofreu muito
com isso, eu li creio que li por duas vezes e chorei muito, além de
me levar a um mundo que eu encantei, esta leitura me motivou a observar as
particularidades do mundo, e todas suas alegrias em aproveitar cada momento com
quem amamos, sem questionamentos e sem medos, pois eles passarão e somente ficará as lembranças.
E foi assim,
que entrando na faculdade senti que estava vencendo as barreiras impostas
pelas críticas, e quando me tornei mãe evoluir minha forma de ver o mundo, e minha admiração por ti cresceu ainda mais te vendo como
vó, e a mudança de cidade me deixa fortemente saudosa de seu sorriso e
seu carinho.
Este é um sentimento que não muda, não diminui e não estremece.
O amor de mãe.
A benção de mãe.
A proteção de mãe.
Te amo minha bela mãe. Feliz seja seu dia dos pais, receba meu forte abraço.
Priscila Stefanie Soares Coimbra
É
um dom, uma certa magia
Uma
força que nos alerta
Uma
mulher que merece
Viver
e amar
Como
outra qualquer
Do
planeta
Maria,
Maria
É
o som, é a cor, é o suor
É
a dose mais forte e lenta
De
uma gente que ri
Quando
deve chorar
E
não vive, apenas aguenta..."
Composição:
Fernando Brant / Milton Nascimento