sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Dia dos pais...

Maria...

De onde eu vim? Porque estou aqui?
Sabe mãe, quando eu mexi pela primeira vez no seu ventre, imagino que você tenha pensado.
-Minha nossa e agora? É tudo ainda mais real. 
Eu fui a primeira e de onde vim, veio mais duas preciosidades, minhas queridas, amadas e inestimáveis irmãs...
Quando você me carregava dentro de ti, eu te fiz passar tão mal, te enjoei tanto e você foi tão forte, tão forte que mesmo sobre críticas, julgamentos e toda precariedade eu estou aqui.
E estava aqui refletindo sobre nossa vida, e como o mundo da voltas, e observo que as mesmas pessoas que hoje julgam o outro por sua orientação sexual, são os mesmos que te julgaram por ser mãe solteira, por escolher nos trazer ao mundo, e se teve algo que incomodou muito gente e que pode ser medido na mesma proporção ainda foi a sua Coragem, quem tem coragem incomoda quem não tem.
Você teve coragem de assumir que era mãe solteira, e isto foi como se você escrevesse na sua testa - me julguem - porque isso que pesava todos os dias, e todos os dias eu me sentia um objeto dentro de casa, como  uma estranha, se sentindo culpada pela minha própria existência, e foi pela sua perseverança que as visões começaram a clarear, você lutou tanto mãe, e como lutou, errou, acertou e nos ensinou, nos motivou a ser mais que todos a nossa volta desejava que a gente fosse, amenizando qualquer dor que nos era direcionada.
Nessa data referida  ao dia dos pais eu recordo que levava para ti todos os presentes da escola, nunca me incomodou o fato de não ter um pai, mas sempre me incomodou o fato de julgarem você, me revoltei e como me revoltei, não admitia que todos que poderiam ter lhe ajudado, lhe acolhido  foram os que mais lhe apedrejou e te julgou como se você tivesse nos plantado sozinha, e eu ouvia sempre, e ouvi  por muito tempo sem responder, que você quis assim, e me questionava, - quem escolhe ser crucificada  por sonhar com uma família, por acreditar que um homem será pai dos seus filhos e ser amada. No entanto  aos poucos notava que mais uma vez você estava sendo julgada, e era um circulo tão vicioso que cheguei a ouvir que meu digníssimo pai não teve culpa... Afinal ele é homem,  e eu, que fui rejeitada pela identidade paterna duas vezes ficava sem compreender como ele nunca era referido como culpado.
A primeira rejeição foi logo ao nascer, quando não me reconheceu, não me viu crescer, não arcou com nenhuma necessidade minha, não me viu formar no colégio e nem na faculdade, eu considero isso um aborto paterno, mas... 
A segunda veio quando ao me reconhecer judicialmente virou mais uma vez a cara pra lua e fingiu não saber da minha existência, nem de minhas irmãs.
É estranho. Frio. e ás vezes penso que estranhamente esta criatura "meu pai" deu seu sentimos paternos a outros tão filhos quanto eu. Mas, vai entender né, e assim crescendo e evoluindo as respostas foram surgindo, e desde então os lábios passaram a soltar o que o coração sentia e a mente não mais se aquietara.
E com felicidade que todo este passado ficou onde deveria, no passado, e a cada dia  mãe que compreendo seu amor passei a te admirar ainda mais.
De tudo que já passamos desejo apenas que as boas lembranças fiquem guardadas, pois elas são muitas, o gosto pelo café, boa música e de conversar você há de concordar que é de você que veio. Não sei se sabes, mas a leitura também, quando criança eu lia aqueles livros infantis que nunca me chamaram atenção, mas por volta de meus onze/doze anos recordo-me de um livro que você tinha Simplesmente viver, da Eliana Chaves, lembro-me  bem que ele contava a historia de um garoto, que sofria de distrofia muscular, uma doença incurável, e a família sofreu muito com isso, eu li creio que li por duas vezes e chorei muito, além de me levar a um mundo que eu encantei, esta leitura me motivou a observar as particularidades do mundo, e todas suas alegrias em aproveitar cada momento com quem amamos, sem questionamentos e sem medos, pois eles passarão e somente ficará as lembranças.
E foi assim, que entrando na faculdade senti que estava vencendo as barreiras impostas pelas críticas, e quando me tornei mãe evoluir minha forma de ver o mundo, e minha admiração por ti cresceu ainda mais te vendo como vó, e a mudança de cidade me deixa fortemente saudosa de seu sorriso e seu carinho. 

Este é um sentimento que não muda, não diminui e não estremece.
O amor de mãe.
A benção de mãe.
A proteção de mãe. 
Te amo minha bela mãe. Feliz seja seu dia dos pais, receba meu forte abraço.


 Priscila Stefanie Soares Coimbra

É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta..."
Composição: Fernando Brant / Milton Nascimento